2 de fev de 2010

A PARTIDA DE GUDE, O PUDIM E A MULA PRETA


Pintura: Site Google - Partida de Gude (autor desconhecido)


Era novo ainda o menino da fazenda da porteira quando o conheci. Bem me lembro que ele se divertia absurdamente com a "mula preta com sete palmos de altura" que seu pai lhe cantarolava, mas o que mais gostava era o pudim de leite condensado que sua mãe lhe fazia. Achava pouco uma travessa inteira, e como sentia que tinha que dividir, nunca se satisfazia e nem conseguia um travessa só sua.
Certa vez, resolveu roubar carambolas de seu próprio quintal subindo pelo muro do vizinho. De lá de cima mesmo, jogava os frutos pros amigos da rua e era ovacionado. Só que sua alegria acabou quando seu pai lhe descobriu e deu uns bons safanões. Ficou de castigo um tempão.
Era um menino bem desastrado, chutava pedras em vez de bolas.  Uma vez, montado num cavalo esfolou a barriga pois não conseguiu fazer o bicho se desviar de um galho perpendicular ao tronco. Mas no final era tudo muito divertido.
Era resmungão quando faziam barulho enquanto pescava e quando tinha que limpar as gaiolas dos canários. Dava uns socos quando lhe passavam dos limites, mas eram momentos raros estes.
De fato era um bom filho, era mesmo, sempre foi. Obediente, estudioso, como haviam planejado mesmo.
Depois de anos sumido, vi dia desses o menino, estava em outras paragens. A mesma coisa, nem um fio de cabelo mudara. Vi de longe, quase que passou por mim desapercebido, não fosse um golpe de pescoço que me deram para notá-lo.
Veio ao meu encontro, abraçamo-nos como velhos amigos que somos, foi bom revê-lo, lembrar das coisas boas. Soube que estava meio ressabiado, pouco até arredio, acho que se assustou com a gente muda da cidade grande, estranhava que nem comiam carambola.
Ainda se engraçava com a tal da mula preta e agora se deliciava com uma travessa inteira de pudim de leite condensado da padaria da esquina. E uma coisa eu notei, o menino está com cara de mais feliz, um sorriso genuíno, seu mesmo. Falou que tem grandes amigos, não aquele montão de antes, e se orgulhava pois nem precisou lhes conquistar com carambolas.
Certa hora ele me falou alguma coisa, mas não entendia de jeito nenhum. E o menino insistia, gritava, mas era eu que não ouvia mesmo. Passou um monte de cavalos seguidos por uns vinte cães ruidosos, logo após um caminhão cegonha.
O menino inusitadamente estava me convidando pra jogar bolinha de gude ali mesmo, e que se eu não aceitasse, eu não dormiria a noite de remorso por ter-lhe negado uma partida. Agradei demais daquilo, só que perdi na certa, mas o menino nem era muito melhor que eu.
Despedimo-nos, certos de que iríamos nos rever com a frequência necessária para manter acesa nossa amizade.
Noite passada tinha dormido mal por causa do calor, mas depois da partida de gude me senti tão leve, que hoje dormirei melhor. Fiquei triste por termos perdido o contato esse tempo todo, mas felizmente eu o reencontrei e seremos novamente grandes amigos. Espero que, depois disso, sempre que o menino falar, ele seja ouvido e não precise mais gritar.

Gritos surdos traduzem os desejos mais urgentes.

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