
Pois é meu caro, sempre quis lhe dizer isso, mas só agora eu digo.
Como você era chato! Santo Deus, e como sugava as nossas energias, nem lhe conto!
Mas de que adiantaria se eu lhe revelasse tais verdades, talvez piorasse.
O seu "bom dia" seco e sempre coroado por uma queixa e um pedido, ou melhor, uma ordem. Confesso que era difícil lhe dizer um "não".
Labutamos, ficamos horas e horas em infinitas discussões para tentar descobrir uma maneira de lhe colocar nos eixos, de consertar seus erros - aqueles dos quais, depois me contaram, você se gabava - e de lhe dar conforto mesmo que fosse da pior maneira possível.
Foi uma luta. Lembra daquele dia que me telefonou de madrugada queixando de sua dor de barriga e de seu cansaço. Levantei bufando e fui até você com a melhor das expressões, "pode deixar que eu resolvo". E resolvi.
Você também tinha um lado bom. Aquela música calma, o cheiro de incenso e loção mentolada, o sarcasmo e o humor negro ocasional.
Diverti-me muito quando soube que orientava as mentes alheias, logo você, um louco varrido.
A vida é assim, acabamos gostando dos mais improváveis. Hoje tenho certeza de que você nos queria muito bem, não sei o porquê, apenas sei e agora digo, talvez fôssemos improváveis também.
Pois bem, depois de tudo, tivemos a ilusão de que você fosse se endireitar. Achamos que com o presente que aquela garota motociclista lhe deu, tudo seria novo e diferente.
Mas não foi, a seqüência de erros continuou, e ganhamos de recompensa a sua ingratidão, o seu sumiço. Nunca mais o vi e tenho a impressão de que jamais o verei novamente.
Nadamos e morremos na beira da praia, que deve ser o lugar para onde você fugiu com quem lhe deu o presente.
Sentimos hoje muito a sua falta, guardamos no peito uma batida surda e frustrada, e naquele canto escuro e deserto deixamos verter uma lágrima densa.
Vai ver foi melhor assim, talvez não tivesse jeito mesmo, você ainda continua um chato em outras bandas.
Para você foi melhor assim!