20 de fev de 2008

MISTÉRIOS


"Se o cérebro humano fosse tão simples que pudéssemos entendê-lo,
seríamos tão simples que não o entenderíamos."

Lyall Watson

O telefone toca e a menina acorda assustada. Número não identificado e ela atende. Não ouve nada, apenas longos suspiros e um choro baixo. Logo a ligação cai. Ela só pensa no pior.
Pouco depois o telefone novamente toca. O mesmo choro, agora sem os suspiros. O pânico lhe invade e nada mais acontece. A ligação dura menos.
Ela se levanta, olha pela janela de seu décimo andar e por alguns momentos sente-se segura. Verifica todos os trincos das portas. Pelo olho mágico vê apenas um corredor deserto.
Ainda resta muito tempo para dormir e a menina, agora mais calma, deita-se em sua cama. O sono vem fácil. No aconchego de seus alvos lençóis, adormece mais uma vez. E numa trilha estreita, agora a menina se vê. Corre desesperada, sem saber de que e pra onde. Segundos depois ela cai. Acorda em queda livre e ouve batidas surdas em sua porta. Ela se levanta e no breu se dirige à porta. Seu coração lhe sai pela boca. Mais uma vez pelo olho mágico avista um corredor vazio. Maldito seja quem a acordou pela segunda vez.
Segundos depois lhe batem à porta outra vez. Nada pelo olho mágico. Apenas um bilhete na soleira da porta. Uma gota borrava a escrita. "Espere mais um pouco, durma ainda", dizia o bilhete. Sem entender, ela o relê mil vezes, vira de ponta cabeça, coloca o papel contra a luz e não descobre a mensagem oculta.
Depois de se acalmar, ela volta pro seu quarto. Desiste de pensar em porquês e dorme. Sonha que está presa numa cadeira, imóvel. Sente um medo terrível e uma vontade imensa de que tudo acabe rápido. O sonho acaba em reticências.
A menina acorda com o despertador que toca, não se lembra do que sonhou. Lembrou-se do longo dia que havia pela frente e por alguns momentos sentiu o peso da obrigação. Ao sair, havia outro bilhete sob a porta, agora com cheiro de perfume. "Agora sim, pode ir e que seu dia seja bom", ela leu. Sente algo quente no peito. Ela então dobra e guarda o bilhete no bolso.
Um tempo depois, ela retira o bilhete de seu bolso, relê, e uma lágrima furtiva borra a escrita. A lágrima era sua. Tentou controlar suas emoções e como era de se esperar, não conseguiu. Temeu que outros vissem seu choro. Cabisbaixa e com um sorriso na alma, a menina seguiu seu caminho.
E como lhe foi desejado, não se sabe por quem, a menina teve um dia bom e com bocejos.

Um comentário:

  1. Juca,

    A vida é sempre um mistério, por mais que a gente a explique, busque compreender, justificar...

    Até porque sem mistérios, a vida perderia quase todo seu encanto.

    Por isso a poesia é tão viva, não se explica, ou a sentimos... ou não tocou nosso coração.

    Beijos,
    Carol

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