8 de nov. de 2008

FAKE FUR

FOTO MONTAGEM: Anúncio PETA - "Todos os animais tem a mesma pele"

Meu ofidismo as vezes me fere.
A minha dor só eu sinto.
Inexplicavelmente masoquista.
Meus avisos somente eu ouço.
É ilegível a minha mensagem.
Grito num vácuo infinito.
Meu plano maléfico me sufoca.
Lobo esganiçado em pele de cordeiro.
Do meu “best-seller”, sou o único leitor.
O melodrama é minha tragicomédia.
A gula preenche meu vazio desmedido.
A ira me diverte.
Sonho com dias sós, dias de chuva.
Na pia suja, deixo o meu veneno.
Na limpeza, a minha impaciência.
Minha frustração, sua ferida fechada.
Amargamente sádico.
Pele falsa, carne de quinta.
Sangue de barata e espírito de porco.
Pobre diabo, coitado miserável.
Devaneio em batidas repetidas e surdas.
Tolo, inocente, contundente.
Puramente pretensioso.
Incompreensível e desconstruído.
Confuso e tempos depois arrependido.
Ódio embebido em tolerância.
Novas manhãs de gosto amargo.
Tempo de vida, meia vida.
Vidas pela metade. Esgotamento.
Não espero que me entenda.
Mais uma vez nunca esperei.
Não entendo. Eu, meu leitor.

29 de out. de 2008

QUATORZE INÚMERAS HORAS

FOTO: Site Google - "Corredor Solitário"

As palavras agora derivam do alívio, do cansaço, da raiva contida, de um desabafo.
Achei que fosse enlouquecer naquelas noites longas e insones, naqueles corredores escuros, no 258 com seus amontoados terminais. Perdi a conta de quantas vezes amaldiçoei o toque daquele telefone. No reino das tolas burocracias e dos formulários nas madrugadas, os mesmos acessos eram perdidos e as necessidades eram sempre raras.
Sempre tive a sensação de que alguém me vigiava quando, no raro descanso, rendia-me ao torpor na masmorra escura e com frangalhos usados como cortinas. Foram quatorze horas multiplicadas por quarenta, foram vinte multiplicadas por quinze, nem sei. Conto os centésimos para o fim.
Lembro-me das várias visitas ao primeiro e ao térreo para antever e abreviar meu sofrimento. Era conhecido, e nesta guerra fiz bons amigos. Ganhei doce de leite e de mamão. Ficava aliviado quando se esgotavam as vagas. Sempre pensava que teria uma noite tranqüila. Inocente engano. Nas madrugadas, eram tantas as surpresas que nem me surpreendia mais.
Recordo-me com asco da sopa de restos das vinte e três. Um minuto a mais, você fica de fora e tudo vai para o lixo. Apenas seguiram ordens. Cansaço gratuito, fúria e litros de calmante goela abaixo. União de não sei o quê.
Agora são sete e cinqüenta e nove, de vinte e nove do mês dez, de dois mil e oito. Sobrevivi. Sou o terceiro deste ano que sai vitorioso deste martírio e não dormi mais uma noite. Enfim acabou. Congratulo a todos os colegas que passaram pacientemente por isso. Desligo o maldito e o arremesso na gaveta imunda pra nunca mais tocá-lo.
Escrevo o último ponto final no caderno.

Aos amigos guerreiros que se identificarão nestas palavras.

21 de out. de 2008

MENINA DO CÉU


FOTO: Site Google - "Janela de Avião"

Ai de mim se você não existisse, ai de mim.
Sempre que penso em lhe ver, meu coração congela.
Dispara ao menor toque, sinto-o no pescoço.
O suor inunda minhas mãos.
...
Ai de mim se você não velasse meu medo.
Se não me acalmasse com sua expressão serena.
De seu uniforme impecável, nina meu sofrimento.
Admiro-te tanto!
...
Lá fora vejo nuvens, o céu azul me apavora.
Nunca sei se o tremor é meu.
Jamais desejei que percebesse meu terror.
Agora que soube, é meu o teu colo...quem me dera!
...
Menina do céu de uniforme impoluto e lenço no pescoço.
Se soubesses como me consolas sem querer.
Se soubesses o quanto lhe sigo com os olhos.
Você me faria sempre companhia.
...
Sei que a escolha é minha e sempre será.
O medo é que me descontrola e nunca consigo evitar.
Você me sorri e agradece, sinto-me único.
Preocupo-me sempre com o seu até breve.
...
Menina do céu de uniforme impecável e voz aveludada.
De batom vermelho e sorriso que aquece.
Ensina-me a esquecer meus medos e a dormir nas estrelas.
Mostre-me o prazer com os pássaros e assim desejar estar sempre contigo.

17 de set. de 2008

DIAS DE DESLIGAR

Nesta manhã depois de noite mal dormida,
mais um dia nublado e um longo dia pela frente.
O telefone toca cedo, acordo de sobressalto.
O coração sai pela boca em convulsões incessantes.
...
Uma coca, um café e um folhado murcho e ensebado.
Penso em tanta coisa, ligar para um monte de gente,
dizer o indizível, colocar uma pedra sobre tudo.
Refazer a agenda, organizar os gastos.
...
Em casa, uma poeira fina inunda a madeira.
O piso manchado, a folha seca na planta da sala.
A cama desarrumada, a comida mofada na geladeira.
A correspondência acumulada.
...
O velho plano de seguir mar afora reaviva.
Incomoda, a ânsia pelo fim se renova.
Ainda faltam três noites em claro.
Um número que reduz a lentos passos.
...
Perco a luta para o sono, desanimo.
A britadeira no andar de cima e o pulsar da minha cabeça.
O travesseiro me agride...em vão.
Desisto. Tenho vontade de sumir.
Há dias em que a gente acorda com vontade de sumir.

2 de set. de 2008

PÉROLAS DE QUANDO EM VEZ

FOTO: Pérolas - Site Google


Acho que tudo começou naquele final de semana.
Você tinha acabado de chegar e eu fui seu anfitrião.
Eu disputava com todos a sua atenção e a sua melhor estima.
Dizia: "você gosta mais de mim, não gosta?"
Tempos depois, pra minha felicidade, você me confessou que sim.
...
No ofício, você passou a fazer parte da minha rotina.
O sorriso de sempre e sempre novo.
Mesmo sob pesadas tempestades, nada mudava.
Falando nisso, e como és intempestiva!
Eufórica e falante.
...
Chamava-te de gata. Gosto de dizer as verdades.
E como me divertia com suas "sábias palavras".
Aprendi a falar igual. Ou foi você que aprendeu a falar comigo?
As pérolas de quando em vez e as gargalhadas logo após.
O que dizíamos é impublicável.
...
E os personagens de nossas vidas.
Só nos dois sabemos.
Os almofadas, os animais, as pessoas com nomes de órgãos.
Também impublicável.
A melhor coisa que existe, depois de muitas, é maldizer a vida alheia.
...
Sentemos então para um café. Combinar a rotina mensal.
O pão de queijo de chumbo e o folhado gorduroso.
A coca-cola e o café de macho.
Ou então um almoço e uma defumagem gratuita.
Os desejos e as ansiedades. As explosões de verdades.
...
Numa tarde, durante o ócio, você me desafiou a estas palavras.
E ficaram prontas quando me mandou aquietar as pernas.
Não as aquietei. Apenas li seus pensamentos.
Minha promessa cumpre-se então. Leia.
Leia logo e vamos ali pra mais um café e um falatório da vida alheia.
Dívida paga com muito prazer "gata"!