13 de mar. de 2008

PALAVRAS DERIVADAS

FOTO E EFEITO: J.Machado - Teclado - 2008

Meias palavras, palavras inteiras.
Uma palavra e meia, sufixada.
Apaixonadamente.
Derivadas de momentos.
Inexatas e sem rima.
Verdade, diário, sempre, quase.
...
Perdido em festa.
Substitutos incompletos.
Prisão nas casinhas coloridas.
...
Um suspiro por vez.
Silêncio do olhar.
Ânsias e respostas.
...
Exclamações de sobra.
Interrogações no vácuo.
Incompreensível com muitas reticências.
...
Saudade dos mistérios navegantes.
Cego pela luz da lua.
Incômodo pela claridade dos subjuntivos.
Indecências da euforia ao torpor.
...
Dos caros amigos:
As casas.
O bar.
A vida.
As visões
Os números
...
Do leitor:
Estranho, doce, rebuscado.
Melancólico, insano.
Mensagens subliminares.
É demais pra mim.
...
De mim:
Escrevo sobre desejos.
Textos ainda longos.
...
PS:
Sempre haverá PS's.

9 de mar. de 2008

REVISÃO

FOTO: J.Machado - Espinhos - 2008

Já ouvi, quantas vezes chorei e me perdi.
Experimentei calmantes, calorias, fugas e desejos.
Acomodei-me por vezes, esperei. Fui pra longe buscar.
Agora me disseram para dar um basta em tudo, um ponto final.
Falaram pra impor, nem que seja ao menos um pouco de respeito.
Desviar o olhar para o meu centro, o meu umbigo. Abrir bem meus olhos.
...
Querem que eu volte a ser como o de antes.
Pediram o endurecimento de um coração em degelo.
Saudosismo de um eu passado que era mais conveniente.
Na verdade, não sentir saudade. É menos doloroso apenas lembrar.
Medir as palavras, falar desmedidamente e controlar mais as emoções.
E variar, mudar a rotina, o tema. Colorir e cantar pra espantar o que há de ruim.
...
Quero aprender de forma indolor e rápida.
Não repetir erros e ter imunidade aos espinhos.
Prometer fazer das segundas, sábados de tarde ensolarada.
Pintar de vermelho, azul e amarelo a tela coberta com o velho cinza.
Ou então apreciar melhor este velho e companheiro cinza e aproveitar.
Tentar entender de vez o romantismo e talvez fazer bem melhor do meu jeito.
...
Parar de apenas querer fugir.
Ir para algum lugar e tentar fixar raiz.
Decidir enfim onde devo ficar. Onde devo parar.
Descobrir o tão velho sonhado meio termo, o autocontrole.
Não mais me chocar em extremos. Aceitar que eles apenas existem.
Não querer encontrar explicações coerentes para todos os acontecimentos.
...
Não desejar tanto.
Não me irritar e não me encantar.
O medo é desafio. A dúvida, um estímulo.
Cura e realização, a rotina. Rosas e carambolas, um doce passado.
Nas bandas de lá ou nas de cá, com os irmãos e o vento, um presente feliz.
Colo de mãe, o sonho. Sem receio de ser repetitivo. E no ponto final, seu sorriso.

3 de mar. de 2008

A MENINA DAS TRÊS CASAS

FOTO: J.Machado - Pela Persiana - 2008

Foi por ela que um dia eu lhe vi.
Na verdade, fui eu quem lhe chamou.
E alguns dias depois você me viu.
Ou olhou, não sei bem, respondeu-me.
...
Foi logo depois de eu abrir a persiana.
Seu jeitinho doce, palavras cor de mel.
Fez-me ver que a vida é boa e merecida.
Que nada é tão tragédia assim.
...
Tens nome de menina e três casas.
O sino a tilintar e música doce ao fundo.
Imagens de sol, céu azul e o mar do sul.
E o olhar nas muitas entrelinhas.
...
Disse-me que a esperança ainda vive.
Que ainda voa bem lá no alto.
Sobreviveu às intempéries e aos vícios.
E que tudo vale muito a pena.
...
Ela existe sim, bem longe, bem perto.
A menina de palavras doces e de três casas.
Visito-a sempre que abro a janela.
Só para ter um sorriso de orelhas.
Um presente de aniversário!

1 de mar. de 2008

SLIPPING AWAY - Moby

"Open to everything happy and sad.
Seeing the good when it's all going bad"

28 de fev. de 2008

UM ESTRANHO NO NINHO

FOTO: Site Gold and Science - Berçário de Estrelas

Há certos momentos na vida em que fraquejamos e só queremos sumir e encontrar um lugar pra reenergizar.
Há pouco me ocorreu um destes momentos. Quase meia noite e um cansaço inexplicável me dominou sem motivo algum. Era um desânimo, uma incapacidade de enxergar a bondade do próximo minuto.
Entrei no elevador. Queria subir pra me deitar e, no entanto, desci. Saí no térreo e despretensiosamente tinha a intenção de tomar um gole de ar pra aliviar a sede do meu sufoco. Mais um daqueles incontáveis momentos de angústia já ocorridos outrora.
Era noite fresca, de brisa leve e agradável. No caminho uma velha senhora me abordou. Perguntou-me se queria conhecer um novo lugar, prometera que lá me sentiria renovado. Já o conhecia na verdade, mas aceitei de bom grado o convite tão amistoso.
Quando entrei, quase dei meia volta. Decibéis e mais decibéis de choro insistente dos recém chegados. Era uma algazarra irritante. Desafiei a minha irritação e adentrei-me. Era uma sala grande e verde. Havia vários pequenos berços de acrílico, dentro de todos eles havia um ser pequenino.
Lindos e horrendos, uns dormiam profundamente, outros se remexiam e choramingavam por algo, leite ou afago, não soube definir. Deu uma vontade imensa de pegar um no colo, mas a fragilidade era grande - deles ou minha?
Um me chamou a atenção, estava num canto. Era uma menina de choro alto e estridente. Tinha uma carinha amassada, narizinho de batata e bochechas rosadas, o tipo preferido de propaganda de margarina. Cheguei bem perto, e com um cuidado inimaginável, infantilizei bem a voz e como nunca havia feito, comecei a ninar a figura. Cantei uma música que acabara de inventar.
Para minha grata e feliz surpresa, ela sossegou instantaneamente. Alguns comentários do tipo, “é... já pode ser pai", foram ditos naquela hora. Pensei com um sorriso de canto de boca, por enquanto ainda prefiro os cachorros que não tenho.
Mas, naquela hora, os bebês me acalentaram, deram-me a energia que buscava. Muita coisa muda em raros e puros momentos desse tipo. Senti algo bom, parecia até cena de filme, os olhos marejaram de contentamento sem causa definida.
Acho que não foi vontade paterna, não mesmo. Sei que pelo menos consegui ver a bondade, ainda inexistente, do próximo minuto, do próximo dia e do próximo ano. E foi assim que naquela noite sonhei com todos os bebês juntos e não foi um pesadelo. Acordei novo.